Liderança em 2026: o que mudou e o que se espera dos líderes modernos 

A liderança que funcionava há cinco anos não funciona mais. Isso não é opinião. É o que mostram os dados de rotatividade em posições C-level, os índices de engajamento em queda e o aumento expressivo de afastamentos por burnout entre gestores. 

Em 20 anos conduzindo processos de executive search e mais de 5.000 entrevistas com alta liderança, observei ciclos de transformação no perfil dos executivos mais demandados pelo mercado. O ciclo atual é diferente. Não se trata de ajuste. É uma reconstrução de premissas. 

O modelo que entrou em colapso 

Durante décadas, a liderança corporativa operou sob uma lógica de comando centralizado. O líder detinha informação, tomava decisões e cascateava diretrizes. A competência era medida pela capacidade de controle. Funcionou enquanto o ambiente de negócios permitia ciclos longos de planejamento e execução previsível. 

Esse modelo encontrou seus limites. A velocidade de mudança no mercado tornou impossível que uma pessoa, ou mesmo um comitê restrito, processe todas as variáveis relevantes para decisões estratégicas. O acesso democratizado à informação eliminou a assimetria que sustentava a autoridade posicional. Profissionais qualificados passaram a escolher onde trabalhar com base em critérios que vão além da remuneração. 

O que observo nas entrevistas com executivos é uma transição incompleta. Muitos líderes reconhecem intelectualmente a necessidade de mudança, mas seus comportamentos automáticos permanecem ancorados no modelo anterior. Essa dissonância gera frustração nas equipes e resultados inconsistentes. 

O que caracteriza a liderança efetiva em 2026 

A pesquisa em Neurociência aplicada à gestão oferece pistas concretas sobre o que diferencia líderes de alta performance no contexto atual. Três competências emergem como determinantes. 

Regulação emocional como competência técnica. A capacidade de manter clareza cognitiva sob pressão não é traço de personalidade. É habilidade treinável. Líderes que desenvolvem essa competência tomam decisões melhores em contextos de incerteza e criam ambientes psicologicamente seguros para suas equipes. A Neurociência demonstra que estados de estresse crônico comprometem as funções executivas do cérebro, exatamente aquelas necessárias para pensamento estratégico e resolução de problemas complexos. 

Construção de autonomia com accountability. O microgerenciamento é sintoma de um modelo mental ultrapassado. Líderes efetivos em 2026 definem claramente os resultados esperados, garantem que suas equipes tenham os recursos necessários e estabelecem rituais de acompanhamento que equilibram autonomia e responsabilização. Isso exige maturidade para tolerar que outros executem tarefas de forma diferente da que você executaria. 

Comunicação que gera alinhamento real. A Psicologia Positiva demonstra que o significado é um dos principais motores de engajamento humano. Líderes que conseguem conectar o trabalho cotidiano a um propósito maior obtêm níveis superiores de comprometimento. Mas essa conexão precisa ser autêntica. Discursos corporativos vazios produzem cinismo, não engajamento. 

O que o mercado espera 

Nas conversas com conselhos de administração e CEOs que estão redesenhando suas lideranças, identifico expectativas convergentes. 

Espera-se que líderes entreguem resultados financeiros sustentáveis. O curto prazo não pode comprometer a capacidade de competir no médio e longo prazo. Isso significa equilibrar pressão por performance imediata com investimentos em pessoas, processos e inovação. 

Espera-se capacidade de atrair e desenvolver talentos. O capital humano tornou-se o principal diferencial competitivo em setores intensivos em conhecimento. Líderes que não conseguem formar sucessores e reter profissionais-chave representam risco estratégico. 

Espera-se adaptabilidade sem perda de direção. O ambiente de negócios exige ajustes constantes de rota. Mas adaptabilidade não é reatividade. É a capacidade de recalcular o caminho mantendo clareza sobre o destino. 

O que precisa mudar na preparação de líderes 

A formação tradicional de executivos privilegia conhecimento técnico e exposição a diferentes áreas funcionais. Isso permanece necessário, mas insuficiente. 

O desenvolvimento de líderes para o contexto atual precisa incluir trabalho sistemático sobre autoconhecimento e regulação emocional. Não como conteúdo motivacional, mas como treinamento estruturado de competências específicas. A metodologia existe. A resistência é cultural. 

Precisa incluir também prática deliberada em conversas difíceis, feedback construtivo e gestão de conflitos. São habilidades que se desenvolvem com repetição e correção, não com teoria. 

E precisa criar espaços seguros para que líderes reconheçam suas limitações e busquem apoio. A cultura do executivo infalível produz comportamentos defensivos que comprometem a qualidade das decisões e a saúde das organizações. 

Uma reflexão final 

A liderança em 2026 não é mais simples nem mais complexa que a de períodos anteriores. É diferente. Exige competências que não eram prioritárias há duas décadas e torna obsoletas práticas que funcionaram por muito tempo. 

O que permanece constante é a essência do papel: criar condições para que grupos de pessoas alcancem resultados que não alcançariam sozinhas. Os métodos mudam. O propósito, não. 

Líderes que reconhecem essa realidade e investem conscientemente no desenvolvimento das competências exigidas pelo contexto atual posicionam suas organizações para competir. Os que resistem à mudança descobrirão, mais cedo ou mais tarde, que o mercado não espera. 

A escolha, como sempre, é individual. Os resultados, coletivos. 

 

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Marcelo Apovian é consultor de performance executiva, com 25 anos de experiência em executive search e mais de 5.000 entrevistas com líderes de alta gestão. 

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