Maratona de Londres
Acabou o Carnaval. Agora o Brasil começa o ano. Para você foi assim? Pelo menos para mim, o ano começou em janeiro. E forte.
Um pódio que não era só dele
Talvez você saiba que passei quase 20 dias no Rio de Janeiro trabalhando como comentarista dos Jogos Olímpicos de Inverno para a Globo e o SporTV. Vivi dias intensos e inéditos: comentei a primeira medalha olímpica do Brasil — e da América Latina — na neve, conquistada por Lucas Pinheiro Braathen no esqui alpino.
E foi de ouro.
Quando o vi no lugar mais alto do pódio, ouvindo o hino, caí no choro. Lucas tem 25 anos. Eu tenho 53. Ele poderia ser meu filho. E, de alguma forma simbólica, foi como se um ciclo tivesse se fechado.
Fiz parte da primeira delegação brasileira em Jogos Olímpicos de Inverno, em 1992. Anos depois, fui o primeiro e único brasileiro a conquistar índice olímpico para disputar uma edição dos Jogos, em 1998 (foi quando o Comite Olímpico Internacional e a FIS – Federação Internacional de Ski decidiram incluir o índice como requisito mandatório aos atletas). Meu sonho era ganhar uma medalha. Não consegui. Mas, ao ver o Lucas com aquele ouro, tive a sensação de que cada passo ajudou a construir o caminho que nos trouxe até aqui.
Eu sei o quão difícil é estar ali. Todo o esforço e sofrimento envolvidos. Sei o que significa competir sem estrutura, sem tradição, sem referência. Eu vivi tudo isso na prática. Foi por isso que chorei. Eu me vi nele!
Vida, esporte e business quase nunca são lineares.
Sempre repito: o esporte é um espelho do mundo corporativo e da vida.
Estudando para o trabalho na Globo, acabei analisando todos os atletas do esqui, e surgiu um dado que me chamou a atenção: cerca de 60% das mulheres que largaram na prova de Downhill já haviam passado por lesões graves — ligamentos rompidos, ossos quebrados. Entre os homens, algo próximo de 40%.
Ao longo das mais de 5.000 entrevistas que fiz como headhunter, vi o mesmo padrão. Executivos e executivas passaram por crises profundas — financeiras, societárias, profissionais e pessoais.
Usando essa metáfora, compartilho algo pessoal que ocorreu comigo. Foi dramático e engraçado, mas tem bons aprendizados que valem a pena eu dividir com você.
A parábola do bombeiro
Estou treinando para a Maratona de Londres, que vai ocorrer no final de abril.
Semana passada, fiz um treino de 32 quilômetros. Logo no início, por volta do quilômetro 6, senti um forte desconforto estomacal. Eu havia acabado de chegar à Praia de São Conrado, vindo de Ipanema. Decidi parar em um dos pontos da praia onde há banheiros públicos. Eram aproximadamente 16h55. Normalmente, esses locais funcionam até as 18h, mas, devido à chuva e ao baixo movimento, haviam encerrado as atividades mais cedo.
Fui até o bombeiro que estava sentado ao lado e pedi ajuda:
“Por favor, preciso utilizar o banheiro. Estou treinando para uma maratona, ainda tenho muitas horas de corrida e estou longe de casa.”
Ele explicou que o espaço havia sido fechado antecipadamente por causa da chuva e que, por essa razão, não poderia autorizar minha entrada. Insisti, mas não houve flexibilidade.
Por alguns segundos — que pareceram horas — fiquei sem saber o que fazer.
Nesse momento, o funcionário responsável pela limpeza do banheiro apareceu. Ao perceber minha situação, autorizou minha passagem.
Ao entrar, imaginando que eu não tinha dinheiro — afinal, eu estava correndo — comentou em voz baixa:
“Você sabe que o banheiro é pago.”
“Quanto custa?”
“R$ 3,80.”
Claramente, ele estava me fazendo uma gentileza e não iria ganhar nada por isso.
O banheiro estava impecável. Entrei com urgência. Ao me sentar, um gel de carboidrato — essencial para completar os muitos quilômetros — caiu dentro da privada. Por um instante, pensei: “Ferrou. E agora?”
Avaliando a situação, não tinha escolha. Mão dentro da privada, recuperei o gel, resolvi a emergência, higienizei as mãos e lavei cuidadosamente o produto com detergente. Ao sair, entreguei R$ 10,00 ao funcionário que me ajudou e fui embora correndo, literalmente.
Conclusão 1
Enquanto retomava o ritmo, não consegui parar de pensar no que tinha acabado de ocorrer. Conexão imediata com o mundo corporativo!
Como é difícil concluir um longo trajeto sem obstáculos. Muitas vezes, é necessário colocar a mão onde não desejamos, mas o importante é fazer o que tem que ser feito. Não importa o quão desagradável seja. Pragmatismo e humildade.
A pessoa, no caso o bombeiro, que foi treinada para ajudar, resgatar e resolver, não fez seu trabalho de forma adequada. Sim, nem sempre quem tem a responsabilidade de ajudar será quem, de fato, fará. Muitas vezes, a ajuda vem de quem menos esperamos.
Na vida, o certo é fazer mais do que nos pedem. O bombeiro fechou o posto antes do horário oficial. Pessoas que fazem menos ou jogam na esperteza devem ser limadas da estrutura o quanto antes.
O funcionário responsável pela limpeza, cuja função poderia parecer limitada, foi quem demonstrou sensibilidade, assumiu responsabilidade e resolveu. Comportamento de um líder. Pessoas assim devem ser valorizadas, bem remuneradas e recompensadas.
Conclusão 2
Meus pensamentos não pararam por aí. Eram muitas horas de treino.
Não devemos pressupor de onde virá o apoio nos momentos críticos. Devemos tratar todos com igualdade.
Fazer além do que é formalmente exigido — pelo chefe, pelo acionista, pelo controlador ou pelo conselho — gera valor, reconhecimento e recompensa.
Esforço e postura correta produzem resultados surpreendentes e sustentáveis.
É possível — e desejável — prosperar fazendo a coisa certa.
Formação, aparência, crachá e cargo não valem nada se a pessoa não for comprometida.
A verdade, a integridade e a ação correta constroem reputação — e reputação gera resultados.
Essa pequena história não é sobre corrida, chuva ou um banheiro fechado. É sobre atitude. E, na vida, atitude continua sendo um dos maiores diferenciais competitivos.
Um abraço forte,
Lelo Apovian