O papel da autorresponsabilidade na performance profissional 

Existe uma linha clara que separa profissionais de alta performance dos demais. Não é talento inato, não é sorte, não é o cargo que ocupam. É a capacidade de assumir a responsabilidade integral pelos próprios resultados. 

Depois de mais de 5.000 entrevistas com executivos de alta liderança ao longo de 20 anos, uma característica aparece de forma consistente entre aqueles que sustentam performance elevada por décadas: a autorresponsabilidade. Não como conceito abstrato, mas como prática diária que determina decisões, relacionamentos e trajetórias. 

O que autorresponsabilidade significa na prática corporativa 

Autorresponsabilidade não é aceitar culpa por tudo que dá errado. Essa interpretação equivocada paralisa mais do que liberta. O conceito operacional é diferente: trata-se de reconhecer que, independentemente das circunstâncias externas, sempre existe uma margem de ação sob seu controle. E é nessa margem que reside o poder de transformação. 

A neurociência oferece uma explicação para esse fenômeno. Quando assumimos responsabilidade por uma situação, ativamos o córtex pré-frontal, a região do cérebro associada ao planejamento, tomada de decisão e regulação emocional. Quando atribuímos resultados exclusivamente a fatores externos, ativamos a amígdala, estrutura ligada a reações de defesa e impotência. A diferença não é apenas filosófica. É fisiológica. 

Na prática, isso significa que o executivo autorresponsável processa adversidades de forma qualitativamente distinta. Diante de um projeto fracassado, a pergunta não é "quem causou isso?" mas "o que eu poderia ter feito diferente e o que farei a partir de agora?". A primeira pergunta gera relatórios de culpa. A segunda gera aprendizado aplicável. 

O custo organizacional da vitimização 

Organizações onde a cultura de vitimização predomina apresentam padrões reconhecíveis: reuniões longas focadas em justificativas, ciclos repetidos dos mesmos erros, alta rotatividade de talentos que se frustram com a estagnação, e lideranças que gastam energia gerenciando conflitos em vez de construir resultados. 

Os dados corroboram essa observação. Pesquisas em psicologia organizacional indicam que equipes com alto índice de locus de controle interno, termo técnico que descreve a tendência a atribuir resultados às próprias ações, apresentam produtividade até 30% superior e níveis de engajamento significativamente maiores. 

O inverso também se confirma. Ambientes onde a culpa é sistematicamente transferida criam ciclos viciosos: menos iniciativa, mais supervisão necessária, menor autonomia, mais desmotivação. O ciclo se alimenta até que a organização perca capacidade de resposta às demandas do mercado. 

Autorresponsabilidade como competência desenvolvível 

Um equívoco comum é tratar autorresponsabilidade como traço de personalidade fixo. Algumas pessoas teriam e outras não. A Psicologia Positiva demonstra o contrário: trata-se de uma competência treinável, que pode ser desenvolvida sistematicamente. 

O primeiro passo é a consciência linguística. A forma como descrevemos situações revela e reforça nosso padrão de pensamento. Frases como "não tive escolha", "me fizeram fazer isso" ou "é assim que as coisas funcionam aqui" sinalizam terceirização de responsabilidade. A reformulação não é exercício semântico. Quando um profissional substitui "o mercado está difícil" por "ainda não encontrei a estratégia adequada para este cenário", algo muda em sua postura diante do problema. 

O segundo elemento é a prática deliberada de análise pós-ação. Equipes de alto desempenho, sejam militares, atletas ou corporativas, compartilham um hábito: após cada projeto relevante, conduzem análises estruturadas que começam com a pergunta "o que nós fizemos que funcionou e o que poderíamos ter feito melhor?". O foco está sempre na esfera de influência do grupo. 

O terceiro componente envolve a gestão da energia emocional. Resistir à tentação de buscar culpados exige regulação emocional consistente. Executivos que mantêm práticas de recuperação, seja exercício físico, sono adequado ou técnicas de mindfulness, demonstram maior capacidade de sustentar posturas autorresponsáveis mesmo sob pressão. 

O paradoxo da vulnerabilidade 

Assumir responsabilidade por erros parece, à primeira vista, uma posição de vulnerabilidade. A lógica defensiva sugere que admitir falhas expõe o profissional a críticas e prejudica sua reputação. A experiência demonstra o oposto. 

Líderes que reconhecem erros com clareza e propõem caminhos de correção ganham credibilidade. A equipe percebe autenticidade e compromisso genuíno com resultados. A dinâmica de confiança se fortalece. O contrário, a postura defensiva que nunca admite falhas, erode a confiança progressivamente. Todos percebem o jogo, mas ninguém verbaliza. O resultado é um ambiente de fachadas onde problemas reais ficam sem solução. 

Implicações para a liderança 

Líderes autorresponsáveis produzem equipes autorresponsáveis. O mecanismo é simples: comportamento se propaga por exemplo mais do que por discurso. Quando um diretor assume publicamente um erro de avaliação e apresenta os ajustes que fará, autoriza implicitamente sua equipe a fazer o mesmo. Quando busca justificativas externas, sinaliza que esse é o comportamento esperado. 

A autorresponsabilidade também transforma a qualidade das conversas difíceis. Feedbacks se tornam mais produtivos quando ambas as partes operam sob a premissa de que resultados dependem de ações sob seu controle. A discussão deixa de girar em torno de quem está certo e passa a focar em como melhorar. 

Aplicação imediata 

Para quem deseja desenvolver autorresponsabilidade de forma prática, três ações podem começar hoje. Primeira: ao final de cada semana, liste três situações desafiadoras e identifique, em cada uma, qual foi sua contribuição para o resultado, positivo ou negativo. Segunda: monitore sua linguagem por uma semana, observando quantas vezes utiliza construções que transferem responsabilidade. Terceira: na próxima reunião onde algo der errado, seja o primeiro a perguntar "o que eu poderia ter feito diferente?" antes de olhar para as falhas alheias. 

Autorresponsabilidade não é sobre carregar peso excessivo. É sobre manter o poder de ação. Em um ambiente onde variáveis externas são cada vez mais imprevisíveis, a única constante controlável é a própria resposta. E essa resposta determina, em última instância, a trajetória profissional de qualquer líder. 

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Marcelo Apovian é consultor de performance executiva, com 25 anos de experiência em executive search e mais de 5.000 entrevistas com líderes de alta gestão. 

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