Pensamento Sistêmico Aplicado ao Cotidiano do Executivo 

A capacidade de enxergar conexões onde outros veem fragmentos não é um dom. É uma competência treinável que separa líderes operacionais de líderes estratégicos. 

O problema do recorte 

Executivos tomam, em média, 35 decisões significativas por dia. A maioria delas acontece sob pressão de tempo, com informações incompletas e múltiplos stakeholders observando. O padrão mental mais comum nesse contexto é o pensamento linear: identifica-se um problema, encontra-se uma causa, aplica-se uma solução. 

Funciona. Até não funcionar mais. 

Quando o turnover de uma área dispara, a resposta imediata costuma ser revisar pacotes de remuneração ou demitir o gestor direto. Quando as vendas caem, a primeira reação é pressionar metas ou trocar a equipe comercial. São intervenções pontuais em sistemas complexos. O equivalente corporativo a tratar febre com antitérmico enquanto a infecção se espalha. 

O pensamento sistêmico propõe uma mudança de lente: antes de intervir, mapear. Antes de agir, compreender as relações entre as partes. 

Da teoria à segunda-feira de manhã 

Peter Senge, no MIT, sistematizou os princípios do pensamento sistêmico para organizações há mais de três décadas. A teoria é robusta. A aplicação prática, no entanto, ainda escapa a grande parte dos executivos. Não por falta de capacidade intelectual, mas por falta de método. 

Três práticas podem transformar essa abordagem em ferramenta cotidiana: 

1. Perguntas de segunda ordem 

Diante de qualquer problema, a primeira pergunta identifica a causa aparente. A segunda pergunta é onde o pensamento sistêmico começa. 

Exemplo prático: "Por que o projeto atrasou?" Resposta de primeira ordem: "A equipe técnica não entregou no prazo." Pergunta de segunda ordem: "Que condições permitiram que a equipe técnica não entregasse no prazo?" Aqui surgem fatores como escopo mal definido, sobrecarga de demandas paralelas, falta de priorização clara, ausência de rituais de acompanhamento. 

A segunda pergunta revela o sistema. A primeira apenas nomeia um sintoma. 

2. Mapeamento de loops de retroalimentação 

Todo sistema organizacional opera com ciclos de reforço e ciclos de equilíbrio. Identificá-los muda completamente a qualidade das intervenções. 

Um ciclo de reforço positivo: equipe engajada gera resultados melhores, que geram reconhecimento, que aumenta o engajamento. Um ciclo de reforço negativo: prazos apertados geram entregas com qualidade inferior, que geram retrabalho, que aperta ainda mais os prazos. 

Executivos com pensamento sistêmico desenvolvido conseguem visualizar esses loops antes de decidir onde intervir. Sabem que em um ciclo vicioso, atacar o ponto de maior alavancagem produz mais resultado do que atacar o sintoma mais visível. 

Na prática: reserve 15 minutos semanais para desenhar, literalmente em papel, os principais loops que estão operando em suas áreas críticas. Identifique onde estão os pontos de alavancagem — geralmente são os menos óbvios. 

3. Delays como variável de decisão 

Sistemas organizacionais têm atrasos embutidos. Uma decisão de contratação hoje impacta resultados em três a seis meses. Uma mudança de cultura pode levar anos para se consolidar. Um ajuste de preço afeta percepção de marca no médio prazo. 

O erro frequente é avaliar intervenções sistêmicas com réguas de curto prazo. Executivos abandonam estratégias corretas antes que tenham tempo de funcionar porque não calibraram adequadamente o delay esperado. 

Aplicação direta: para cada iniciativa relevante, defina antecipadamente o horizonte de avaliação compatível com a natureza da intervenção. Comunique esse horizonte para stakeholders antes de começar. Proteja a execução das pressões de resultados imediatos quando a lógica sistêmica indicar que o retorno é de médio prazo. 

O executivo como arquiteto de sistemas 

A mudança de mentalidade mais significativa que o pensamento sistêmico propõe é sobre o próprio papel do líder. 

No modelo tradicional, o executivo é um solucionador de problemas. Chega a demanda, ele resolve. Chega a crise, ele intervém. Chega o conflito, ele arbitra. É um modelo reativo, exaustivo e com teto de escalabilidade. 

No modelo sistêmico, o executivo é um arquiteto de sistemas. Sua função principal não é resolver problemas pontuais, mas desenhar estruturas que resolvam categorias inteiras de problemas. Não é apagar incêndios, mas criar condições para que incêndios não se iniciem. 

Isso significa investir tempo diferente. Menos em reuniões de status e mais em conversas sobre estrutura. Menos em aprovações de rotina e mais em definição de critérios que permitam autonomia. Menos em motivar pessoas e mais em criar ambientes onde motivação seja consequência natural do trabalho. 

Resultados mensuráveis 

Organizações que desenvolvem pensamento sistêmico em suas lideranças documentam três categorias de ganho: 

Redução de retrabalho. Quando intervenções atacam causas-raiz em vez de sintomas, a recorrência de problemas diminui. Estudos da McKinsey indicam que empresas com práticas de análise sistêmica reduzem retrabalho em 23% a 31%. 

Decisões mais rápidas com menos informação. Paradoxalmente, quem entende sistemas precisa de menos dados para decidir bem. Reconhece padrões, antecipa consequências, identifica variáveis críticas com mais precisão. 

Sustentabilidade de resultados. Soluções pontuais geram picos de performance seguidos de recaída. Soluções sistêmicas constroem capacidades que se mantêm ao longo do tempo. 

O convite 

Pensamento sistêmico não é teoria para consultores discutirem em apresentações. É ferramenta operacional para executivos que precisam entregar resultados em ambientes complexos. 

A diferença entre um líder que apaga incêndios e um líder que constrói organizações resilientes está, em grande parte, na capacidade de ver além do imediato e intervir nas estruturas que produzem os resultados — positivos ou negativos. 

A boa notícia: essa capacidade se desenvolve. Com método, prática deliberada e disposição para questionar as próprias premissas. 

A pergunta que fica: quais sistemas você está alimentando sem perceber? 

 

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Marcelo Apovian é consultor de performance executiva, com 25 anos de experiência em executive search e mais de 5.000 entrevistas com líderes de alta gestão. 

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